Por Rodrigo Mindlin Loeb

*Uma versão deste artigo foi aprimorada e publicada na Revista do Livro da Biblioteca Nacional  Nº 55 ANO 19 2015

Epiteto: “Rodrigo: estes versos falam de um tempo quase arqueológico. Mas o abraço que te mando é atual e afetuoso.” (Carlos Drummond de Andrade em dedicatória no livro Esquecer para Lembrar, 1980.)

Como transmitir uma experiência de mais de 13 anos que levou a concretização da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em algumas laudas de um artigo para esta Revista do Livro, que volta a ser editada pela Fundação Biblioteca Nacional? Bem sabemos que é tarefa impossível. Mas como tarefas e missões impossíveis exercem sobre mim um magnetismo misterioso, aceitei o convite.

Vou iniciar apresentando a Gênese e em seguida os fundamentos que nortearam todo o processo de desenvolvimento, a cronologia e a definição do formato que abriu caminho para realização e inauguração da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que integra o projeto nomeado Brasiliana USP, que por sua vez abriga ainda a nova sede do Instituto de Estudos Brasileiros (em instalação), do Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade de São Paulo, a biblioteca central da EDUSP, uma cafeteria (potencial), um auditório e uma sala de exposições, em um complexo cultural dedicado aos assuntos sobre o Brasil.

Gênese

Gesto raro: doação do patrimônio particular de Guita e José Mindlin, a inestimável Biblioteca Brasiliana, constituída cuidadosamente e criteriosamente ao longo de 80 anos, assegurando sua permanência e livre acesso. Chamado irrecusável.

Instituição que contribuiu para desenvolvimento da arte e cultura no país de forma inédita e especial: a Fundação Vitae/Lampadia, depois de anos de atuação, encerra suas atividades com chave de ouro, doando para o projeto da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, seus recursos finais.

Missão impossível: concepção de um projeto com a definição do programa, da natureza de uma nova instituição de direito privado, que teria que se estruturar e obter os recursos para a implantação inicial e para operação, gestão e manutenção nos 99 anos seguintes, pois no 100o ano o patrimônio seria incorporado à Universidade de São Paulo, que cederia o uso de um terreno para seu primeiro centenário.

Primeira e única doação de recursos para o projeto por pessoa física: Guita e José receberam um cheque de US$5,000 da Dr. Iêda Siqueira Wiarda, especialista em cultura Luso-Brasileira da Biblioteca do Congresso dos EUA, assim que ela soube que a empreitada iria se iniciar. O cheque nunca foi sacado.

Fundamentos:

– a Biblioteca é um espaço eminentemente público;

– a Biblioteca não é um depósito ou um cofre de livros;

– todo e qualquer espaço de acesso público deve ser dignamente planejado, projetado, construído e mantido;

– todo e qualquer espaço de acesso público deve ser uma referência de qualidade, de excelência;

– os livros são para as pessoas;

– a coleção de obras raras e especiais exige ser conservada e preservada, de um lado os livros demandam controle de condições ambientais, limpeza e conservação permanentes (em alguns casos restauro), condições adequadas de segurança física, condições adequadas de segurança patrimonial, e de outro lado o sentido de sua conservação e preservação depende  integralmente da ampla divulgação e acesso, razão pela qual as tecnologias digitais tem “papel” protagonista;

– os livros desenham o espaço, devem estar presentes no desenho da biblioteca, intensificando a densidade atmosférica, visual, real e simbólica;

– a Biblioteca é como um organismo vivo infinito;

– um edifício para abrigar livros de mais de 500 anos deve durar pelo menos outros 500 anos;

– a Universidade é o melhor lugar para manter viva a Biblioteca;

– o edifício público deve ter a melhor construção, mais durável e de manutenção programada e planejada;

– o edifício público deve ter eficiência energética;

– o edifício público não pode ter sistemas que dependam de produtos de reposição importados;

– o edifício da Biblioteca deve ser aberto, deve ter livre acesso as áreas comuns;

– um edifício para abrigar a Brasiliana deve afirmar a brasilidade, a identidade através do olhar para o passado e para o futuro, para conceber o presente, com design de excelência e referência;

Formato que abriu caminho para realização:

Doação direta do acervo para a Universidade de São Paulo que em contrapartida cria uma unidade de ensino denominada Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, com dotação orçamentária e funcionários, assegura a construção do edifício projetado para abrigar a coleção doada e a nova sede do Instituto de Estudos Brasileiros em um prazo de 3,5 anos e assegura a manutenção permanente das condições de segurança patrimonial e ambiental.

Cronologia Jornada Epopéia:

José Mindlin e Rubens Borba de Moraes consideravam a criação de uma fundação ou instituto para receber a suas bibliotecas Brasilianas desde de a década de 80. Montaram a base de um estatuto e para garantir a continuidade da ideia, Rubens Borba de Moraes deixou para José Mindlin a sua biblioteca Brasiliana quando faleceu em setembro de 1986. Por ocasião do centenário do nascimento de Rubens, José escreveu em 1999: “…Preocupados com o que fazer com os livros depois que passássemos desta vida para melhor (pergunto-me sempre se será mesmo a melhor?), resolvemos unir as bibliotecas, para evitar a dispersão. Isso foi objeto, aliás, de longas conversas e muitas dúvidas, pois ele achava que, se nenhuma biblioteca se dispersasse, novos colecionadores teriam uma vida difícil, uma vez que foi naquelas que se venderam que nós encontramos muitos de nossos livros. Mas mesmo na dúvida, resolvemos não dispersar as nossas, e a dele, que nos deixou em testamento, se encontra aqui em casa, intacta, arrumada como estava na casa dele, e não se misturando com a nossa, pois uma biblioteca transmite a personalidade de quem a formou. E a personalidade de Rubens foi fora de série.” (José Mindlin (22/2/1999). Rubens Borba de Moraes: um intelectual incomum).

Foi no final de 1999 que José me chamou para um particular, na saleta de sua casa. Me contou que ele e Guita tinham decidido, com a aprovação dos filhos, doar a Biblioteca Brasiliana, que incluía a Biblioteca Brasiliana do Rubens. Explicou que a Fundação Vitae/Lampadia estava chegando ao fim de suas atividades, pois após a crise financeira da década de 90, o “endowment” (fundo de investimentos para financiar projetos culturais, neste caso) não continuou rendendo na mesma proporção que permitia o financiamento dos projetos apoiados e dos programas que desenvolvia. O Conselho da Fundação decidiu manter os projetos e programas e gradualmente consumir o “endowment”, privilegiando uma atuação de maior relevância, mesmo que finita em um horizonte de curto prazo. O projeto da Biblioteca Brasiliana seria o fechamento com “chave de ouro” das atividades da Fundação Vitae/Lampadia, dirigida naquele momento por Joseph Oppenheim.

Estava se elaborando uma lista dos livros contemplados na Brasiliana e havia um debate acerca da Camoniana e da Lusitânia relacionada a colônia (Luso Brasiliana), consideradas parte de uma zona cinza, e que provavelmente não estariam no conjunto da doação. Sempre insisti que se incluisse esta zona cinza no conjunto, mas sempre respeitei a sabedoria de José e as decisões que tomava. A Brasiliana completa é alguma coisa absolutamente inestimável e maravilhosa, ficou a Camoniana e a Lusitânia para alimentar o espírito dos colecionadores.

No mesmo particular José me disse que ele e Guita decidiram que o projeto arquitetônico ficaria a cargo de mim, do arquiteto Eduardo Riesemcampf de Almeida e do arquiteto Flavio Mindlin Guimarães, e que se a arquiteta Marina Mindlin Loeb estivesse no Brasil poderia participar também.

Eu, Rodrigo Mindlin Loeb, neto de José e Guita Mindlin, formado em arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, cujo trabalho final de graduação foi um sistema de Bibliotecas de Arte para São Paulo, baseado nos planos de Mário de Andrade para as Casas de Cultura, cujo material que estava arquivado desde de 1938 encontrei no arquivo municipal do Piqueri durante pesquisa de Iniciação Científica sob orientação da Profa. Maria Cecília França Lourenço, e que teve o arquiteto Eduardo Riesemcampf de Almeida como membro da banca de avaliação final, iria fazer parte deste fantástico projeto?!! Recém chegado de Londres após um mestrado em Energia e Meio Ambiente na Architectural Association, minha primeira reação natural foi perguntar ao José se ele não havia considerado a hipótese de um Concurso Nacional ou até Internacional de Arquitetura. Ele respondeu energicamente que não era o caso de um Concurso, que o tempo a ser consumido com uma empreitada deste tipo era muito longo e que, mesmo que se seguisse esta estrada, não era viável sem os recursos financeiros assegurados, seria apenas mais um projeto no papel. Com o tempo percebi que José estava certo, pois o que ele estava oferecendo não era simplesmente (o que não quer dizer que seja nem perto de simples) desenvolver um projeto de arquitetura, era o engajamento em uma missão muito complexa e quase “impossível”. Os leitores terão esta compreensão ao acompanhar o relato.

O arquiteto Eduardo Riesemcampf de Almeida era membro do Conselho da Fundação Vitae/Lampadia, e já tinha desenvolvido uma amizade e um laço muito fortes com Guita e José, ele e sua esposa Franca. Sobrinho do poeta modernista Gulherme de Almeida, arquiteto exímio, de extrema qualidade e rigor, teria sua primeira experiência em um desafio desta natureza.

O arquiteto Flavio Mindlin Guimarães, sobrinho de Guita e José Mindlin, autor do projeto e das obras dos dois belíssimos pavilhões da biblioteca que abrigaram a coleção por muitas décadas, filho de tia Esther, experiente no assunto e conhecedor do acervo.

O contato com a Universidade de São Paulo já havia sido feito, através do então Reitor Prof. Jacques Marcovitch, e seriam apresentados potenciais terrenos para uma cessão de uso por 99 anos.

Em fevereiro de 2000 houve uma reunião de apresentação, por parte da Universidade de São Paulo, dos possíveis terrenos dentros do Campus para realização do projeto como estava concebido. Após uma apresentação na sala de reuniões da reitoria, um micro-onibus iria fazer o circuito para poder se definir o terreno objeto da cessão de uso. Saímos todos pela garagem da reitoria para aguardar o transporte, que tardou uns 10 minutos a chegar. Nestes minutos, José Mindlin ao lado de Jacques Marcovitch, conversando com entusiasmo sobre o projeto. José observa o lindo terreno diante de todos, gramado e livre, entre a reitoria e a Av. Prof. Luciano Gualberto, e pergunta ao reitor se não seria um lugar perfeito para o projeto. Fez-se um silêncio. Sem dúvida não havia melhor opção. O terreno faz parte do projeto estrutural de implantação da USP, como um “cuore” das humanas, e como viemos a saber, estava reservado para implantação da Faculdade de Direito, que renunciou ao terreno uma vez que não pretende sair das instalações do Largo São Francisco. Fizemos o passeio de micro-onibus apenas para confirmar a escolha. A partir deste momento diversas reuniões foram feitas para preparação de um documento de apresentação do projeto para o Conselho Universitário. Preparamos argumentos, justificativas, um histórico da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, o conceito do projeto e a participação da Fundação Vitae/Lampadia, um mapa do campus da USP apresentando o terreno com as diretrizes de ocupação. José sugeriu ainda que se buscasse o Instituto de Estudos Brasileiros para propor a sua integração ao projeto. Com o conhecimento do Reitor Jacques Marcovitch e do Pró Reitor de Cultura e Extensão Prof. Adilson Avanci de Abreu, conversamos com o então diretor do IEB, Prof. Murillo Marx. Houve ao mesmo tempo que entusiamo com a ideia, uma resistência por parte de representantes da USP que foram consultados. A resistência se expressou diretamente, e nos foi dito que o destino do IEB deveria ser definido pela própria USP, e que estávamos opinando em assunto que não nos dizia respeito.

O que conseguimos no documento que foi aprovado pelo Conselho Universitário, foi reservar uma parte do terreno para uma futura possível instalação do IEB. A ideia de um centro multidisciplinar de acervos e pesquisa sobre o Brasil teria que aguardar.

Em março de 2000, fizemos uma reunião na residência de Guita e José, para avançar na concepção e desenho do projeto, presentes além de José e de mim, os arquitetos Eduardo Riesemcampf de Almeida e Flávio Mindlin Guimarães e a Sra. Regina Weinberg para ouvir o Sr. Norman Fiering, diretor da Biblioteca John Carter Brown que nos transmitiu uma série de reflexões e ideias, entre elas a busca de uma definição geral da primeira missão da Biblioteca: a de colecionar e preservar para o futuro e para posteridade e do que poderia ser a segunda missão: promover a pesquisa e o acesso. Deu parâmtreos numéricos de consulta e espaços necessários, fez perguntas para gerar mais reflexão. Lançou a ideia de um edifíco que poderia se estruturar com a posibilidade de expansão em “asas” (wings) para permitir a potencial futura comunicação e colaboração com o IEB e eventualmente outras instituições/coleções. Reforçou a importância de uma liderança no processo. Apontou a possibilidade de criação de um Conselho Consultivo e de um Comitê Consultor, além de uma Comissão de Implantação do Projeto e uma Comissão de Trabalho para a etapa de implementação. Nesta altura a Comissão Especial para a Institucionalização e Instalação da Biblioteca Guita e José Mindlin na USP (Comissão presidida pelo Prof. Adilson Avansi e formada pelos Profs. Drs. Gil da Costa Marques, Maria Cecília França Lourenço, Murillo Marx, João Alberto Schützer Del Nero, Eugênio Foresti e pelo arquiteto Sérgio Assumpção) já estava trabalhando diligentemente e aprovou os documentos de localização e diretrizes de implantação inicial enviados pelo nosso grupo de trabalho, indicando ainda a adequação do Plano Diretor da CUASO para consolidar a proposta a ser aprovada pelo Conselho Universitário. Estava planejada a apresentação formal do termo de cessão de uso para a sessão de Junho de 2000 do Conselho Universitário.

Nós arquitetos começamos a elencar os principais desafios e questões a serem estudadas. Fizemos uma série de reuniões com Guita, Cristina Antunes (bibliotecária da coleção) e José em diversas composições para aprofundarmos as questões relacionadas a conservação, cuidados ambientais e de manuseio do acervo. Consultamos referências da ABER (Associação Brasileira de Encadernação e Restauro, fundada por Guita Mindlin e Teresa Miranda, com um grupo de especialistas no assunto), de experiências de outras bibliotecas pelo Brasil e uma documentação muito consistente da Fundação Getty apoiada pela Fundação Vitae/Lampadia. Este estudo foi fundamental para elaboraçõe dos primeiros esboços e definição de organogramas.

Naturalmente que a leitura espacial de bibliotecas cuja arquitetura consideramos emblemática e que constituem ícones de edifícios desta natureza nos acompanhou durante todo o processo projetual. A Biblioteca Sainte Geveviève em Paris (1844-50), de Henri Labrouste, é um edifício robusto que configura quase um quarteirão urbano, e o acesso central, clássico, por um vestíbulo a partir do qual as escadas levam ao andar superior, ao grande salão, configurado pelas paredes perimetrais repletas de estantes de livros, que formam o mezanino para criar mais um anel perimetral de estanteria. A luz natural abundante preenche o espaço de forma difusa. As grandes mesas de consulta com a marcação de postos de trabalho, as luminárias para os planos específicos, sugerem a ideia do recinto dentro do recinto. Já a Biblioteca Nacional da França em Paris (1862-1868), também de Henri Labrouste, amplia a escala de maneira monumental e busca a circularidade na solução construtiva e de iluminação. A grande sala oval de leitura é espaço emblemático para qualquer biblioteca que foi desenhada depois dela.

O Real Gabinete Português de Leitura (1880-1887), desenhado principalmente por Rafael da Silva e Castro em estilo neomanuelino, traz em seu interior o espanto da beleza do espaço desenhado pelas estantes de livros, pelos próprios livros e mezaninos, com a luz natural presente de maneira sutil e misteriosa. Segue-se a ele o grande edifício da Biblioteca Nacional (1905-1910), assinado pelo engenheiro Sousa Aguiar, e o vazio com as estantes em mezaninos intermediários entre pavimentos principais, confere monumentalidade e densidade incríveis. A Morgan Library, desenhada em 1903 por Charles McKim, do grande escritório de arquitetura da época em Nova Iorque, McKim Mead & White, abriga de maneira espetacular a coleção Pierpont Morgan, com escadas de acesso a mezaninos escondidas por trás de trechos de estantes-portas “secretas”, agregando uma atmosfera de mistério ao espaço da biblioteca. Em 2006 foi inaugurada a renovação e ampliação desenhada por Renzo Piano e Beyer Blinder Belle, preservando os espaços do edifício original e criando áreas de atividades e usos públicos, expositivos e administrativos, além de uma ampliação de sua reserva técnica.

A Biblioteca Pública de Estocolmo (1922-1928), desenhada por Gunnar Asplund, integra conceitos espaciais da Sainte Geneviéve e da Biblioteca Nacional de Labrouste, amplificando o potencial do efeito da luminosidade em espaço de planta circular e grande pé direito, com a parede perimetral repleta de livros (o que é curioso, pois as estantes tem que ser resolvidas em seções lineares para compor uma grande circumferência).

A Biblioteca Beinecke de Obras Raras e Manuscritos (1963) de Gordon Bunschaft, que foi arquiteto chefe da Skidmore, Owings & Merril, é uma jóia de edifício. Lapidado com extremo rigor e beleza, resolve o volume do edifício externo com elementos pré fabricados estruturais em cruz, e painéis de vedação de placas de pedra de pouca espessura, que ao receberem a incidência da luz, ganham translucidez, revelando seus veios e transmitindo uma luz tênue e extremamente reduzida para o grande vazio interno, preenchido no centro pelo prisma monolítico de vidro transparente, o bloco de livros. Com corredores perimetrais de acesso voltados para o espaço intermediário, preservam as condições ambientais do acervos e revelam aos visitantes o conjunto magnífico que constituem. Na base do conjunto, sob a praça pública. As áreas de trabalho e consulta, que desenham um pátio interno, com um jardim de pedras e escultura desenhado pelo artista Isamu Noguchi.

Uma das obras primas do arquiteto Louis Kahn é a Phillips Exeter Academy Library (1965-1971), o vazio central desenhado pela rigorosa estrutura de concreto aparente com suas aberturas verticais em círculo, revelando os painéis de madeira das estantes de livros, aquecendo o espaço da biblioteca. Os recintos de consulta brilhantemente concebidos, como células individuais dentro do recinto dos livros, a luz natural que atravessa, coada, os espaços. A obra de Louis Kahn é uma referência muito profunda na arquitetura da Biblioteca Brasiliana.

Mais recente, a Biblioteca da Universidade Técnica de Delft (1997), desenhada pelo escritório Mecanoo, explora todas estas expressões da luminosidade e da presença das estantes de livros no desenho e agrega a criação de uma cobertura jardim como continuidade do campus.

Foi importante nas discussões de projeto o edifício da Menil Collection, desenhado por Renzo Piano. Em especial a qualidade da luz natural e dos elementos que compõe a cobertura.

E foi assim que, nesta imersão no universo das bibliotecas, surgiu o primeiro estudo arquitetonico, com muito debate e reflexão entre Flavio, Eduardo e eu. Um edifício compacto, com a passagem pública livre, atravessando por debaixo do bloco da coleção. Foi a primeira síntese das ideias. O Flavio, infelizmente, não prosseguiu conosco no projeto, pois teve que se ausentar  para resolver assuntos de ordem pessoal que iriam absorver totalmente sua atenção.

Sem dúvida nenhuma esteve presente sempre o desejo de que houvessem elementos na arquitetura do novo edifício que remetessem à memória de Guita e José e de sua casa-biblioteca. Em hipótese alguma poderiam ser diretas ou óbvias as referências, e no desenvolvimento do projeto este desejo se concretizou em distintos elementos e cores.

Em paralelo acompanhei e apoiei um trabalho de avaliação de investimentos necessários para a construção, operação, gestão e manutenção. O objetivo era estabelecer uma meta para captação de um fundo de “endowment” que assegurasse a permanência e continuidade do projeto (no modelo de 99 anos de operação e gestão autônoma). O Marcelo Furtado, amigo da Sônia, filha caçula de Guita e José, ajudou na formatação inicial deste plano. Os números eram desafiadores!

Outra frente de ação se referia aos aspectos jurídicos e estatutários da Fundação Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que estavam sob a condução e coordenação do Dr. Alcides Jorge Costa, advogado e amigo próximo de José. Foi nesta frente que começaram a surgir entraves que se confirmariam intransponíveis caso fosse mantido o formato do projeto. A doação, ou dotação, da coleção Biblioteca Brasiliana por particulares para uma Fundação de direito privado receberia a incidência de impostos calculados sobre o valor avaliado dos bens doados. Pelo que pude acompanhar, em um determinado momento no Brasil, muita gente constituiu Fundações de direito privado para transferir seu patrimônio e estar isento de tributação. A Receita Federal, identificando esta estratégia, passou a tributar qualquer doação de particulares para entidades privadas indistintamente. Há rumores de que a coleção poderia ter sido regularizada com a Receita Federal em uma oportunidade anterior, e que faltou algo para ser feito que teria auxiliado neste processo. Em todo caso a questão intransponível que se apresentou era a obrigatoriedade de recolhimento de um valor de tributo sobre a doação que resultava superior ao valor inicial estimado apenas para a construção civil de uma obra especial de aproximadamente 7.000m2. Muita gente tentou ajudar a resolver a questão, o Celso Lafer, Fernando Henrique Cardoso, ninguém se conformava com o entrave.

Logo no início com o impulso do historiador André Caramuru e de seu amigo amante das artes Luiz Mussnich, elaboramos um projeto para o desenvolvimento de uma Brasiliana Digital. Naquela altura os contornos privados da natureza do acervo não permitiram o avanço da ideia, que foi retomada com enfoque distinto mais adiante no desenvolvimento do projeto.

Enquanto se buscava a solução para a captação de recursos financeiros e para os entraves jurídico-tributários, o primeiro estudo arquitetônico aguardava o desenlace para poder prosseguir.

Um amigo de José Mindlin, que apoiou irrestritamente o projeto, um dos responsáveis pelo êxito alcançado, Fernando Moreira Salles, procurou José para apresentar um outro colecionador que em uma oportunidade única havia adquirido belíssima coleção iconográfica Brasiliana e que poderia integrá-la ao projeto. Ele estava disposto a financiar uma parte do projeto e da obra para acomodar e integrar a sua coleção.

Desta maneira surgiu uma segunda versão do projeto, desenhada por mim e pelo Eduardo (Flavio já tinha se afastado) de maior dimensão e com a inclusão da coleção iconográfica, e de um setor mais amplo para exposições e eventos, com o objetivo de permitir a realização de diversos programas e atividades na nova sede a ser construída.

Quando esta versão do projeto arquitetônico adquiriu uma forma e consistência, o entrave tributário persistia e dava sinais de ser de fato intransponível. Neste momento José recebeu e recusou algumas propostas de compra da coleção Brasiliana, e uma oferta da Biblioteca Nacional de criar um setor especial para a coleção dentro de seu acervo.

Foi neste momento que José recebeu o contato do Prof. István Iancsó, recém empossado Diretor do IEB. István havia localizado o processo na Universidade que alocava uma área anexa ao terreno da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin para instalação do IEB. Tendo conhecimento das dificuldades que a doação estava enfrentando, procurou José e perguntou se ele poderia investigar meios dentro da USP para viabilizar o projeto. Após alguns dias voltou com uma proposta: a doação seria feita diretamente para a USP, ou seja, de particulares para uma instituição pública, e isto resolvia a questão tributária. Em contrapartida a USP iria criar uma unidade de ensino, nos moldes da “Maria Antônia”, que teria dotação orçamentária e funcionários, e o projeto seria desenvolvido integrando o IEB.  A USP seria responsável pela construção da edificação em prazo a ser estabelecido e seria elaborado um termo de doação. O Prof. István solicitou a FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) que indicasse um arquiteto para elaborar o programa de necessidades da ala que iria abrigar o IEB, e o programa do IEB foi organizado e produzido pelo arquiteto Milton Braga. A ideia de um centro multidisciplinar de acervos e pesquisa sobre o Brasil estava de volta.

A USP iria custear os projetos básicos e executivos de arquitetura e engenharia através da FUSP (Fundação de Apoio a Universidade de São Paulo), momento em que se envolveu diretamente no processo o Prof. Antônio Marcos de Aguirra Massola, o gestor representante da Universidade que executou o projeto em todos os aspectos administrativos e operacionais; sem ele nada teria sido possível. Os projetos foram contratados e finalizamos a terceira e definitiva versão arquitetônica.

Em uma das inúmeras reuniões que foram realizadas na sede do IEB, o termo Brasiliana USP foi materializado na presença dos arquitetos, de István e José. Muitos encontros com as equipes técnicas do IEB foram feitos para apresentar os desenhos e soluções, e esclarecer os elementos indicados no programa de necessidades.

Contamos com diversos colaboradores técnicos e consultorias nesta estapa de projetos. Os aspectos de segurança patrimonial e ambiental eram muito importantes. Tivemos apoio da consultora Rosária Ono para a parte patrimonila e na parte ambiental conduzi um estudo de diretrizes ambientais e de sustentabilidade que contou com a participação do consultor Jörg Spangenberg, tendo inclusive elaborado simulações computacionais de microclima no terreno com a implantação do projetos, para prever as condições de temperatura e radiação que seriam enfrentadas.

Em muitos momentos sentimos dificuldades pela ausência de um interlocutor técnico representante do cliente para debater e assumir responsabilidade sobre as decisões. Talvez a questão mais difícil tenha sido a definição do sitema de combate a incêndio. Toda a equipe técnica do IEB foi consultada, mas a decisão final ficou por nossa conta. Definimos que as áreas de acervo seriam já a princípio aquelas com menor probabilidade e menor risco de início de incêndio (com instalações elétricas estritamente necessárias, sem tomadas epalhadas pela planta, em eletrocalhas aparentes, visíveis e de fácil acesso). A partir desta premissa avaliamos todos os sistemas disponíveis e viáveis naquele momento. Descartamos o gás carbônico pelo risco que representa aos usuários. Todos os sistemas com outros tipos de gás dependiam de importação, o que significa que se houvesse uma descarga acidental, ou mesmo em virtude de um início de risco, a reposição poderia levar mais de um ano (caso houvesse recursos para compra) e neste período não haveria sistema de combate ativo. Optamos pela água, com sistema que foi desenvolvido na etapa de implantação como pré action com nebulizador e acionamento localizado. Significa que a tubulação que alimenta o sistema fica sem água, evitando riscos de vazamentos, e que apenas após um alarme e verificação real do risco, a válvula abre para o acionamento localizado, que não é por inundação, pois haveria o problema de escoamento. Complementam o sistema de combate os detectores de fumaça, as câmeras de monitoramento, os hidrantes e extintores, a visibilidade das áreas de acervo em relação aos espaços públicos.

No final de 2005 com o Projeto Básico consolidado, o Prof. István já estava trabalhando na estruturação das bases institucionais do projeto e nas possibilidades de captação de recursos para a construção. Sua relação com Juca Ferreira, assessor direto do então Ministro da Cultura Gilberto Gil, permitiu que a ideia fosse apresentada e recebesse o apoio irrestrito do Minc, expresso imediatamente na indicação da possibilidade de captar um recurso extra que a Petrobrás havia recém apurado como potencial para Lei de Incentivo. Com o auxílio da agente cultural Mariah Villas Boas (indicada pelo arquiteto Eduardo Riesemcampf de Almeida) elaboramos um projeto de captação que contemplava a primeira etapa de obras. Para aprovação do projeto, apresentei na sede do IPHAN em São Paulo, todos os projetos básicos e respectivas planilhas. O pedido foi aprovado e os primeiros recursos via Lei Rouanet foram captados (R$2 milhões) no final de 2005 através da Petrobrás, que aderiu de maneira incondicional ao projeto, com o entusiasmo de sua equipe de apoio a cultura liderada pelo Luis Carlos Nascimento, mais uma figura sem a qual dificilmente teríamos conseguido realizar o que foi realizado. Este recurso foi muito importante para que se efetivasse o início da obra.

István constituiu uma Comissão de Implantação, formada inicialmente por ele, eu e Eduardo, Marah Villas Boas e Antônio Marcos de Aguirra Massola. Em seguida o Prof. Pedro Puntoni foi trazido para o projeto e para este grupode trabalho pelo Prof. István, como um colaborador e também como responsável pelo desenvolvimento do projeto de digitalização do acervo. Pedro assumiu a coordenação do projeto e foi o Diretor interino da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin durante o período de sua criação e constituição.

Enquanto concluíamos o Projeto Executivo de Arquitetura, o termo de doação estava sendo elaborado e negociado. Em linhas gerais o termo que foi acordado entre as partes considerava o Projeto Brasiliana USP como um centro de acervos e pesquisa sobre o Brasil, integrando a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e o Instituto de Estudos Brasileiros, que preservariam autonomia compartilhando a edificação e sua infra estrutura. Guita e José doariam a coleção Biblioteca Brasiliana e a USP, em contrapartida, asseguraria a construção o projeto de arquitetura elaborado para uma edificação única (Biblioteca Mindlin e IEB) no prazo de 3,5 anos, e que seriam mantidas as condições adequadas de guarda e preservação da coleção dali por diante (caso a contrapartida não se efetivasse a doação seria revogada, o que ainda vale para as condições adequadas de guarda e preservação). A data da cerimônia da assinatura do termo de doação foi definida para o dia 17 de Maio de 2006. Na véspera da cerimônia, a então Reitora Profa. Dra. Suely Vilela enviou uma alteração do termo de doação que excluia da contrapartida a construção da ala destinada ao IEB (o que do ponto de vista da arquitetura foi estranho, pois desenhamos uma única e indivisível edificação, e era um prenúncio de obra inacabada, mesmo que ainda nem tivesse começado). Não houve alternativa senão aceitar a alteração e o termo foi assinado.

Em Junho, reunida a Comissão de Implantação, tendo a ampulheta sido virada e com menos de 5% dos recursos necessários para a execução da obra, definiu ser urgente iniciar a aplicação dos recursos obtidos no final de 2005, caso contrário teriam que ser devolvidos. Entendi que esta obra nunca seria realizada se fôssemos aguardar a captação total dos recursos necessários e propus a Comissão de Implantação que eu formasse uma equipe de gerenciamento técnico para executar os serviços de obra que os recursos disponíveis permitissem. Aprovada a sugestão convidei para fazer parte da equipe o Engenheiro Cyro Ruben Álvares Pessoa, de larga experiência na construção mas aposentado aos 74 anos. Cyro trouxe para a equipe o Mestre de Obras Sebastião Bueno da Silva, 4 anos mais velho que ele e muito experiente. Convidei também o Engenheiro Milton Zeni e mais tarde forma integrados a equipe o tpecnico José Rubens Joazeiro e o arquiteto Caio Atílio Dotto. Esta equipe preparou todos os elementso técnicos para a execução de todas as etapas de obra, com o apoio administrativo e financeiro em um primeiro momento da FUSP e dois anos depois da SEF (Superintendência do Espaço Físico da USP). Assim foi planejado o início das obras e marcada a cerimônia de lançamento da Pedra Fundamental para o dia 7 de Dezembro de 2006.

Logo foi montado o barracão da obra que serviu como escritório da equipe de gerenciamento técnico e apoio para cada etapa da obra que se viabilizava. Com o avanço da captação e entusiasmo da Comissão de Implantação o barracão foi adptado e abrigou a sede provisória da Biblioteca Guita e José Mindlin, bem como o laboratório de digitalização do acervo, sob a coordenação dos Professores István Jancsó e Pedro Puntoni, além de nossa equipe técnica. Até a metade do prazo estabelecido no termo de doação aplicamos na obra os recursos captados via lei Rouanet e os recursos seminais do projeto doados pela Fundação Vitae/Lampadia. A Reitora parecia reticente em aplicar recursos da USP na obra. Finalmente quando aprovou o primeiro aporte condicionou a aplicação apnas na ala da obra destinada a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, e foi neste momento que se criou o descompasso da obra, agregando a tarefa já bastante complexa e desafiadora enormes dificuldades técnicas, gerenciais, construtivas e projetuais. Até hoje a instalação do IEB está incompleta. Tivemos que revisar a maior parte dos projetos para se adequarem a execução em duas etapas, a menos da estrutura, pois não havia recursos para contratação de serviços e nem tempo disponível. Seguimos as juntas de dilatação previstas pela engenheira estrutural Heloísa Maringoni, para permitir o faseamento.

Com o avanço e concretização da obra, o apoio e entusiasmo que o projeto já havia recebido do do BNDES, representado pelo seu presidente Prof. Dr. Luciano Coutinho, contaminou toda a equipe do Departamento de Cultura do BNDES e pudemos desenvolver um projeto para mobiliar e equipar (tecnologia) o edifício baseado na defesa do design brasileiro e do design de alta qualidade e desempenho. Recebemos a doação direta dos recursos e o precioso acompanhamento da aplicação dos mesmos durante o processo de implantação.

Muitos foram os desafios e em muitos momentos aguardamos a chegada de novos recursos para dar continuidade aos trabalhos. Foi quando o Reitor Prof. Dr. João Grandino Rodas assumiu a reitoria que a Universidade assegurou os recursos para conclusão da obra civil para permitir que a coleção fosse transferida para a nova sede.

A obra avançou e o prazo estabelecido inicialmente não foi cumprido. José manteve a doação, pois Guita havia falecido. Em seguida os filhos de Guita e José mantiveram a doação, pois José faleceu antes da conclusão da obra. O Prof. István Jancsó faleceu um mês depois da morte de José.

Inaugurada a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, concretiza-se o sonho quase impossível, ao mesmo tempo em que apenas inicia sua atividade. O processo fugiu a lógica de realização de projetos de natureza pública, revelando a importância de um grupo de trabalho transdisciplinar e transgeracional. Caberá ao Conselho da Biblioteca assegurar que os princípios e valores base permaneçam vigentes independente das mudanças nos quadros políticos da Universidade de São Paulo.

*Revista do LIVRO da BIBLIOTECA NACIONAL

*Artigo publicado originalmente na Revista do Livro da Biblioteca Nacional  Nº 55 ANO 19 2015

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